Resumo

A partir de sua trajetória pessoal e profissional, Maria Elisa reflete sobre o risco de a inteligência artificial homogeneizar a produção de comunicação. O artigo defende o valor da experiência, do repertório, da personalidade e da capacidade humana de interpretar nuances como elementos indispensáveis para produzir trabalhos autorais e realmente personalizados em um mercado cada vez mais automatizado.

Eu não sou todo mundo: na época da IA, descobri que minha mãe sempre teve razão

Desafio do profissional de comunicação é não deixar que sua voz seja igual a do Claude, Chat GPT e afins

Resumo

A partir de sua trajetória pessoal e profissional, Maria Elisa reflete sobre o risco de a inteligência artificial homogeneizar a produção de comunicação. O artigo defende o valor da experiência, do repertório, da personalidade e da capacidade humana de interpretar nuances como elementos indispensáveis para produzir trabalhos autorais e realmente personalizados em um mercado cada vez mais automatizado.

MA
Artigo de Maria Elisa AlvesGerente de Comunicação na Dona
01/08/2026
Leitura 8 min

“Você não é todo mundo!”. Essa frase, repetida pela minha mãe milhares de vezes, me exasperava durante a adolescência (não fui das mais fáceis, confesso). Mas, hoje, quando já estou muito mais próxima de ter um cartão de idoso para estacionar do que de desejar qualquer uma das estripulias a mim negadas pela Dona Elisabeth, reconheço o valor de cada uma das sílabas dessa sentença proferida em 99,3% dos lares brasileiros – segundo levantamento realizado pelas vozes na minha cabeça.

Eu não sou todo mundo! Sou uma profissional de Comunicação (e não de Direito, como sonhava minha mãe) para lá de experiente. Tenho 56 anos, uma carreira em Jornalismo – até prêmios ganhei –, e hoje trabalho com comunicação corporativa. Já geri muitas crises, entrevistei presidentes da República, destaques de escola de samba, a vovózinha que perdeu tudo na enchente e, pasme, até mesmo assassinos. 

Como todo profissional, já chorei escondida no banheiro (poucas vezes, mas chorei). Mas, entre fortes emoções e o marasmo de alguns dos plantões que já dei na vida, desenvolvi jogo de cintura, a capacidade de tomar decisões rápidas, escrever na velocidade da luz, e tudo isso sem perder a ternura. Então por que eu deveria deixar a minha voz ser igual a de todos ao meu redor?

No momento em que muitas agências de comunicação anunciam como estratégia o uso de Inteligência Artificial em todas as etapas do dia a dia, eu me rebelo. Quero botar para jogo a minha vivência, a minha maneira de enxergar o mundo. Não quero e nem vou (obrigada, Dona Comunicação, por me permitir isso) criar textos, bolar campanhas, sugerir ações para fortalecer a reputação dos meus clientes com sugestões do Claude, Gemini, ChatGPT e afins.

"Meus neurônios funcionam bem e fazem lindas sinapses. Para quê entregar um resultado pasteurizado?"

Me recuso a acolher as frases feitas da IA. Abomino as construções com paralelismos forçados, o famoso “não é sobre isso, é sobre aquilo”. Sou a rebelde do travessão – e por ele levanto bandeiras! E, por melhor que seja o Prompt, sinto dizer, a IA não vai ser tão boa quanto eu. Ou você. Ou seu vizinho.

Falta a ela criatividade. Falta repertório, aquele insight que muda o jogo. A IA não entende as entrelinhas de um encontro com um cliente, não estabelece conexões, muito menos as genuínas (adjetivo que o ChatGPT, aliás, adora). Pode até transcrever uma reunião corporativa, mas não é capaz de interpretar aquele silêncio que diz tudo.

Cabe a nós, humanos da Comunicação, captar todas essas nuances e entregar resultados personalizados para cada um de nossos clientes. Deixemos, pois,  a IA, que é, sim, útil, relegada ao papel de fazer planilhas, criar sites, pesquisar (chequem depois os dados, pelos amor de todos os deuses), facilitar o dia a dia. Mas, na relação com o cliente, seja você mesmo!

Afinal, como diria o Gemini, que acabei de consultar para fechar esse texto: “A comunicação de verdade é feita de pessoas para pessoas; ela respira nas falhas, na ironia fina e na vivência de quem sabe que nenhuma máquina substitui o calor humano. O mercado pode continuar deslumbrado com o atalho dos algoritmos, em busca de uma eficiência plástica e sem alma. Eu sigo apostando no brilho nos olhos de quem pensa por conta própria”.

01/08/20268 min
AUTOR-ELISA

Sobre Maria Elisa Alves

Jornalista, atuou como repórter na Revista Veja e editora-assistente no Jornal O Globo. Na Dona, gerencia equipes e constrói estratégias e projetos para os clientes da agência.

Este é um artigo de opinião. As análises expressas são de responsabilidade do autor e refletem sua visão profissional.

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