Criado pela LiveMode, canal liderado por Casimiro fideliza o público nos grandes torneios e se torna referência em entretenimento digital

O consumo coletivo de uma partida pelo celular representa a transformação das transmissões esportivas – Imagem: Divulgação.

O consumo coletivo de uma partida pelo celular representa a transformação das transmissões esportivas – Imagem: Divulgação.
A Copa do Mundo FIFA 2026, a maior competição de futebol da história, não proporcionou recordes só a si mesma. Na primeira vez desde 1970, a Globo não exibiu todos os jogos do Mundial e a CazéTV, sua principal concorrente, teve exclusividade de metade das partidas e mais que dobrou o seu alcance em comparação à Copa no Qatar, com cerca de 130 milhões de dispositivos únicos conectados no YouTube durante o período da competição.
Com o rosto de Casimiro Miguel, esses resultados conquistados são os frutos de um projeto que começou há 10 anos pela LiveMode, e que hoje concorre com veículos de comunicação tradicionais e se tornou referência na transmissão de torneios esportivos no país.
Criada por Edgar Diniz e Sergio Lopes em 2017, a LiveMode é especializada em venda de direitos esportivos e controla 100% da CazéTV. Esse é o terceiro empreendimento da dupla, que já havia criado a TopSports, especializada em marketing esportivo, e o canal Esporte Interativo (EI).
Para se diferenciar de outros canais, o EI buscou inovar na relação com seu público. Para isso, o canal acompanhava as reações das transmissões por SMS e Orkut, além de buscar por direitos de transmissão de campeonatos de menor expressão, para trazer os torcedores mais apaixonados. Naquela época, eles apostavam no conceito que hoje é o diferencial da CazéTV: o jeito descontraído de fazer televisão. Em 2015, eles venderam a operação para a Turner, hoje Warner Bros. Discovery.
Quando fundaram a LiveMode, Edgar e Sergio já tinham a experiência de anos em transmissões esportivas. Mesmo assim, eles passaram meses apenas estudando o perfil do novo torcedor, que cresceu assistindo a vídeos em plataformas digitais, como o YouTube. Em paralelo, a empresa também assessorava criadores de conteúdo esportivo.
Em 2022, surge a grande oportunidade. A FIFA estava negociando os direitos digitais da Copa do Catar. Em um momento de reorganização financeira, a Globo decidiu não adquirir a exclusividade do torneio para a internet. A LiveMode entrou no negócio e adquiriu o pacote por cerca de US$ 3 milhões – em comparação, a emissora carioca pagava US$ 90 milhões anualmente à entidade esportiva. Tendo um formato de transmissão desenvolvido e testado, público mapeado e a maior competição esportiva do mundo nas mãos, faltava somente uma referência.
Antes da CazéTV, Casimiro Miguel começou sua trajetória no universo esportivo como estagiário no canal Esporte Interativo, de Edgar e Sergio. No Youtube da emissora, o jovem desenvolveu projetos que uniam o esporte e entretenimento, como o programa De Sola. Na época da pandemia, Casimiro fazia transmissões ao vivo diárias na plataforma Twitch sobre diversos temas, desde gameplay de jogos online até reações a vídeos virais. Com seu jeito descontraído e humorado, ele atraiu um público jovem e altamente engajado.
Vascaíno fanático, Casimiro sempre expressou o desejo de transmitir um jogo de futebol ao vivo em seu canal pessoal. Entretanto, os acordos esportivos costumam ser caros e exclusivos das grandes emissoras de televisão, além de exigir que os dois clubes entrassem em acordo com a mesma empresa para a transmissão. Em 2020, novas regras foram implementadas no Brasil.
Com isso, Casimiro realizou a transmissão da partida entre Athletico-PR e Vasco, válida pelo Campeonato Brasileiro de 2020. A exibição aconteceu em seu canal na Twitch, com intermédio da LiveMode e foi viabilizada pelas regras da “MP do Mandante”, que permitiram ao clube paranaense comercializar os direitos da partida de forma independente. Na ocasião, a transmissão experimental reuniu milhares de assinantes e serviu como o primeiro grande teste para o modelo de exibições digitais do streamer.
Em paralelo, Casimiro seguia ganhando público em múltiplas plataformas: nas transmissões ao vivo da Twitch, nas visualizações de trechos em seu canal pessoal no Youtube e no número de seguidores nas redes sociais. O rápido sucesso o levou a ser eleito Homem do Ano pela GQ Brasil, na categoria Conteúdo Digital. Sendo uma das maiores personalidades da internet brasileira e altamente conectado com o futebol, a LiveMode já sabia quem seria o rosto para a sua cobertura da Copa no Qatar. Em novembro de 2022, nascia a CazéTV.
No Mundial daquele ano, o novo canal transmitiu apenas 22 jogos da competição. Mesmo assim, os resultados foram positivos: na cerimônia de abertura e primeira partida, entre o país-sede e o Equador, o pico de aparelhos conectados foi de 1 milhão no YouTube.
Outro diferencial era a disponibilidade dos jogos completos e melhores momentos após as partidas, quenão ocorria nas transmissões da Globoplay, streaming da Globo, por exemplo. A partida de abertura chegou a 4,6 milhões de visualizações em apenas 24 horas. Mesmo com a Globo liderando na TV aberta, com cerca de 18,6 milhões de pessoas assistindo simultaneamente, o número da CazéTV já era expressivo por conta da estrutura completamente diferente da emissora.
Com o sucesso da Copa do Catar, a LiveMode seguiu apostando na força da CazéTV, que transmitiu outros eventos esportivos de grande alcance, como as Olimpíadas de 2024. O grande trunfo do canal de Casimiro é a fidelização e renovação da audiência que assiste a estas competições, um grande objetivo de entidades como a FIFA e o COB. Por isso, a CazéTV se tornou a única detentora oficial no Brasil de todos os 104 jogos da Copa do Mundo de 2026.
O mercado acompanhou o movimento e as marcas apostaram nesse novo modelo de transmissão: só com os patrocínios master, a CazéTV faturou cerca de R$ 2 bilhões. Foram 11 cotas comercializadas para empresas como Itaú, Ambev, Coca-Cola, Vivo, iFood, Mercado Livre, GM, Decolar, Bet365, Betnacional e KTO. A empresa apostou na conexão com o público e montou dois ambientes físicos, a ‘Casa CazéTV’, em São Paulo e no Rio de Janeiro, com espaço para assistir os jogos e ativações de marca. Além disso, o canal comercializou produtos exclusivos da emissora e trouxe grandes nomes do jornalismo esportivo nacional para a sua cobertura.
Os dados revelam o sucesso que foi a transmissão via YouTube. Segundo o presidente da Google Brasil, Fábio Coelho, mais de 130 milhões de pessoas teriam sido alcançadas pelas transmissões. A Rede Globo, por exemplo, somando TV aberta, fechada, Globoplay e GETV, afirma ter tido alcance de 142 milhões de pessoas, números menores que em 2022. Apesar de ser um projeto recente, a Cazé obteve números acima do esperado, mesmo dividindo audiência com as emissoras de sinal abertas.
Na semifinal entre Espanha e França, ocorreu o maior pico de acessos simultâneos, com cerca de mais de 23 milhões de aparelhos conectados. De acordo com os dados divulgados pela CazéTV, o alcance de contas únicas na final da Copa foi de cerca de 38 milhões – na final de 2022, esse número foi de aproximadamente 8,7 milhões. Além disso, o canal hoje tem 29 das 30 transmissões ao vivo mais vistas da história do YouTube mundial, e a Copa rendeu ao menos 2,5 bilhões de visualizações ao canal. A CazéTV se tornou o 10º maior com número de inscritos no Brasil, chegando a mais de 40 milhões. Hoje, ela já é um dos grandes players da comunicação esportiva do país.
O sucesso da CazéTV não passou batido pelas concorrentes. O Grupo Globo lançou, em 2025, a GETV, seu canal no Youtube focado em esportes, com uma proposta de linguagem informal e foco em transmissões ao vivo – para concorrer diretamente com o canal da LiveMode. Na TV aberta, o SBT está buscando aumentar o número de transmissões esportivas na sua grade.
Em um universo de fragmentação de conteúdos e multiplicidade de streamings, as transmissões ao vivo são um forte caminho para a retenção e fidelização do público. Não à toa, plataformas como Netflix, Amazon Prime e DAZN estão apostando alto na aquisição de direitos esportivos regionais e mundiais: em 2026, a projeção é que o mercado global de streamings deve investir US$ 14,2 bilhões nesse setor, segundo a Ampere Analysis.
No Brasil, outro canal do YouTube já começou a se movimentar. O PodPah anunciou a integração do canal Passa Bola ao seu ecossistema de negócios. Criado em 2021 pelas jornalistas Alê Xavier e Luana Maluf para cobrir o futebol feminino, ele fazia parte do ecossistema do Desimpedidos e tornou-se independente. O canal vai ter grade fixa e recorrente com três programas, aumentando assim a sua produção e execução. Além delas, há previsão de outras jornalistas e criadoras de conteúdo do esporte. O projeto já possui acordos com as empresas Amazon, Uber e Hyundai, que também atuam como patrocinadoras dos campeonatos femininos da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
Inclusive, o próximo evento esportivo mundial acontecerá justamente em território brasileiro: a Copa do Mundo Feminina será sediada pelo Brasil em oito cidades-sede: Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. Nas transmissões, volta o embate Globo x CazéTV, já que as duas empresas possuem os direitos para todas as partidas, com exclusividade do canal da LiveMode no Youtube.
De um teste em 2022 a transmissões dos grandes eventos mundiais esportivos, a LiveMode criou a nova referência na comunicação esportiva brasileira, em um formato que veio para ficar.